terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cinza


O caminho é coberto por folhas secas. Ficará esquecido, perdido no meio do nada. Apenas um barulho, o da melodia de pingos de chuva tocando nas folhas. O vento completa a exibição sonora da natureza. A natureza também tem seu ritmo. Pássaros voam. Suas asas rebatem alguns pingos. Olham tudo por cima. São pequenos e frágeis reis em seus reinos libertos do chão. Sem amarras. Não há mais água ao redor, apenas chão, gritam lá de cima. Secou tudo. Apenas a água da chuva caindo levemente.
Onde havia águas profundas, há somente um barco, esquecido, virado com furos no casco. Um barco que será corroído e esquecido pelo tempo, virado no meio do nada. As palavras do navegante daquele barco escorreram pelos buracos no casco causados por ele mesmo enquanto estava perdido em suas próprias tempestades internas. Agora, todas suas lembranças secaram com a água, até a última gota. Não há o que recordar. Tudo dele ficou cinza.
Ele havia aderido à arte de atuar e criar. Criou sua dramaturgia, mas caiu desempenhando o papel criado por ele mesmo. O fogo acabou destruindo o cenário. Só ficou cinzas que o vento espalha, levando para longe. O tempo estendeu-lhe a mão, mas, ao ajudá-lo a levantar, disse para ele ir embora. Não restou nada, não há mais como consertar o cenário. Ele perdeu a própria estória. A solidão não olha para ele e nem pertence a dramaturgia inventada por ele. A solidão não tem companhia, mas é real.

Vá e não volte. Suas companhias estão lá na frente, disse o tempo para ele. Quando, finalmente, ele partiu, a porta do tempo foi fechada para que a poeira levantada não sujasse sonhos que não lhe pertenciam.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Suspiros



 As nuvens acendem a luz no fim de tarde. Já estavam à espera da noite que chegou revelando a fase da lua. Fases de meiguice e ternura. Menina. Mulher. A lua mostra-se. Nuvens dispersas. Pensamentos velozes, não se perdem no caminho. As palavras começam a cantar. É quando o vento traz de longe a voz que não ensaia a rima. Sem ritmo dançante. Apenas um ritmo diferente que vibra dentro do peito. As letras chamam. Sinalizam. Piscam. Código Morse. É quando os sentidos captam e enviam pensamentos. Pensamentos deles foram, velozes, na ânsia de um abraço, mas colidiram-se. Não se machucaram. Ele segurou e colocou a moça no colo por um instante. Ela é como uma pétala na palma da mão delicada dele. Pingos caem de nuvens que não seguram as lágrimas. Pingos que caem lavando, mas não retirando a cor. A cor vermelha de uma pétada na palma da mão. A mesma cor que une o coração das palavras. Palavras que o vento leva das mãos ao ouvido. Suspiros.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O som que não para




Palavras entrelaçadas. Palavras que sentam no banco da praça arborizada e ficam apreciando as pinceladas que pintam a noite. A brisa sempre por perto, mas não emaranha as frases. O vocativo não entrega o nome. É quando a nuvem esconde a lua. O vento cobre o nome com folhas. Folhas desenham um coração. O coração que bate no peito do vocativo.
A banda passa tocando a música deles. Silenciam. Apenas, ouvem. A lua ilumina. Como se estivessem na platéia de um palco imaginário. A banda ainda toca, apenas para eles, a canção que é só deles. Revivem com a música tocando dentro deles. O som que não para. O tempo parece parar. Instantes eternos quando as palavras deles sussurram, completam suas frases, entendem suas entonações enquanto a música é ouvida sob a luz da lua.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Navegante


 Quando o sol desperta com aquele brilho intenso, são os olhos dele fitando-a. A visão dela perde-se no azul. Não consegue fitá-lo. Não consegue ir e nem voltar. Mas ele olha para ela e toca o ombro dela com o seu calor. Ela sente. Sorri de volta e sussurra algo. Cada um no seu lugar. Troca de mensagens. Telepatia. Sentidos afiados. Ela traduz o som do coração. Conexão. Ela compõe uma canção. Ele ouve com atenção. Faz parte dela. A canção é para ele. Ele faz uma modificação na letra, incluindo-a também. A canção, agora, é para os dois. A letra está completa. Mas não definiram o compasso. Ela pede para ele ouvir quando ele estiver navegando por águas calmas ou turbulentas, em águas próximas ou à deriva em alto mar.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Link


 Palavras doces, puro mel. O verbo é o néctar. Matéria-prima do mel que banha as orações e escorre pelos espaços entre as letras e as pausas das vírgulas. Palavras digeridas por olhos famintos. A sede subsequente é por mais. Pula-se em águas profundas. Submersa, a sede cede. Debaixo d'água, imersa em um silêncio gritante, por meros instantes, ela pensou ter visto a imagem dele. É a imaginação piscando. A imaginação cria formas. Ela perde a noção do tempo. Volta pra cima, impulsos a fazem bailar enquanto volta à superfície. Ela vê o farol. O farol indica a direção.
Pensamentos voam até lá, de olhos abertos. Não querem perder um detalhe do rosto dele. A mente irá fotografar, a alma internalizará.  Se a saudade chegar, ela terá a imagem colorida dele em mente. O vento bate forte. Nada levará. Nenhuma palavra cairá na água e nem ficará presa em correntes de âncoras por tempos infindáveis no fundo do mar.
Ele está, lá, com um embrulho em mãos, à espera dela. Quando ela chegou, ele entregou o embrulho para ela. Ao desenrolar, ela viu que eram tão lindas e verdadeiras as palavras que ele deu à ela. Ele pediu que guardasse aquelas palavras com cuidado e que as deixasse florescer. Serão guardadas no lugar mais seguro, no coração, disse ela. Ele sorriu agradecido. As palavras são links para nossos sonhos, disse ele. Suas palavras serão bem cuidadas, disse ela e, em seguida, ela agradeceu e deu-lhe um beijo na mão. 
Os pensamentos dela voltam até ela, mergulhando em águas claras, chegam encharcados, deixando molhados os olhos dela.

Linhas do papel


As cores de uma tarde. A brisa espalha a tinta. Uma combinação de cores fortes. As nuvens realçam. Não mancham. O pincel pintou um balanço para a moça sentar. Embalando-se, olhando para o nada, pensando em tudo. Ele pensa nela. É o sentimento recíproco através de palavras, de sonhos. Tocam o coração um do outro. Compondo a cada dia. Vivem de mãos dadas durante o sonho. Não há nada de errado. Corações embalados pela doçura. Ele manda um beijo através do tempo. Ela guarda numa caixinha para que não se desfaça. Mandando outro para ele em seguida. As palavras deles submetem-se ao coração. São seus vícios diários. Ele confessa sua arte para o papel. Ela apenas esboça o que não chega aos pés dele. Uma arte encantada. Eles são encantados em um mundo de sonhos. Eles encontram-se nas linhas do papel. É uma tinta feita da matéria de sonhos que não borra e não se apaga.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Fé e Coragem



É na ida que os tropeços fazem sentido. Levanta-se e segue adiante com mais vontade. Sonhos estão ali na frente, guardados no futuro. De lá, não sairão. Às vezes, o vento sopra, mas não para levá-los para longe, mas para mostrar que estão lá à espera da realização. Os caminhos são longos mesmo. Mas quando se calça de esperança e força de vontade, passa-se por eles sem perceber quão longos são. Passa rápido como as horas que não demoram mais. Sonhos, anseios, é a vida correndo nas veias. É o sentido. Não se pode parar no tempo nem no espaço. Um espaço vazio. Um ser vazio. É preciso ter sonhos e correr atrás de suas realizações com afinco e honestidade.
Uma vida é feita de sonhos, de anseios, de vontades, de curiosidades, de dúvidas, da ânsia pelo saber, etc. São coisas que impulsionam, que dão novo gás. Se fosse possível transformar todos os sonhos em realidade como num passe de mágica, seria fácil demais, não teria o mesmo gosto, a mesma satisfação, a mesma sensação de vitória. É com o esforço que vem o gosto. O gosto da satisfação de querer, esforçar-se e conseguir. Depois de muito esforço, consegue-se o que almeja. Por exemplo: depois de estudos árduos, consegue-se a aprovação. É digno. É alegria em alto grau. Mais uma meta alcançada dentre outras que já foram e outras que ainda serão. É a prova de que se pode conseguir. Os verbos "querer" e "conseguir" andam juntos lado a lado. Muitas vezes, o verbo "conseguir" vai ficando um pouco de lado. Mantenhamos os dois juntos lado a lado. Ninguém é fraco o suficiente que não possa suportar o peso de um sonho. 
De olhos fechados, de olhos abertos, sonhos permanecem. Não desaparecem como fumaça. Dorme-se, acorda-se, os sonhos continuam. Fazem parte de nós. O futuro acolhe-nos, oferecendo fé e coragem.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O fundo da alma



Ele enxerga o fundo da alma e compartilha o saber brilhante. Exatidão. O esplendor da sabedoria lançado até nós. Abre-se as mãos para receber. Vem de longe e permanece. Leitura atenta. A alma agradece. A palavra dele não falha. Dia após dia, e, sempre, esperando-se por mais. Olhos não se cansam. A leitura é simples, mas o significado é grandioso, o efeito é total. Gentileza e sabedoria guiam a mão. A mão que oferece o saber. A mão da simplicidade e da bondade. Corações abrem as portas e deixam entrar. Um saber singular. A voz que é ouvida de longe. Sana dúvidas, almas, mais leves. Coração mais forte. Passos mais firmes. Guiando-se pela mão humilde, bondosa e sábia. O saber esperado por todos a cada dia. A razão de estar em tela. Palavras que transformam. Palavras que tocam a alma. O anseio pelo saber. Sintonia. Resultados que não tardam quando aceito com humildade, o saber repassado. A sensibilidade dele percebe, o que não vemos. Mas ele mostra-nos dia após dia. É querer, sempre, mais. A fonte dele é inesgotável. Nossa sede, insaciável. Manhãs bem melhores, é quando a fonte jorra. Deixa-se molhar. É renascer todos os dias. É olhar a realidade com outros olhos. Olhos amparados pela mão que nos leva a olhar para dentro de nós. Palavras brilhantes que chegam. Internalizam-se. Almas, no claro. Quando a tela é desligada, só há claridade. Uma realidade mais clara.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mundo encantado



Papel. Um óculos. Uma xícara de café. Ideias passeiam. Há uma curva. Chegam até lá. Além da curva. Um abraço. De mãos dadas a caminhar. Em silêncio, mas suas almas dizem muito. Uma pétala no chão. Olhos fitam a pétala. Ela pega e leva consigo. Pensando em como a pétala foi privada da sua flor precocemente. Mas ela será guardada, protegida até seus últimos instantes. Ainda possui cor e essa cor dá vida à ela.
Continuam caminhando. Vão até o rio. Molham os pés. Água fria. Sentam-se e encostam-se em uma árvore. Ele olha para ela. Ela, tímida, desvia o olhar. Ele tenta descobrir em que ela está pensando. Sem saber que ela pensa nele mesmo com ele sentado ao lado. Ela sorri de como são bobos. Calados, querendo dizer tudo. Olha para o rio, querendo olhar para ele, querendo tocar o rosto dele. Quer dizer algo, mas nenhuma palavra. Esconderam-se todas. Interrogação. Inibidas. Desconcertam-se diante do silêncio.
 É quando as ideias que passeavam, voltam. Novamente, papel, um óculos. O rosto dela desenhado. As ideias deixaram, com ele, a lembrança das mãos macias dela segurando as dele enquanto caminhavam. Uma pequena estória trazida pelas ideias. Um mundo encantado. Um mundo paralelo. Só eles vêem. Só eles sabem o caminho. Reticências.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Pontinhos grandiosos

                                                                          

Tarde azul que se foi. A brisa trouxe o canto do pássaro. O canto misturou-se ao barulho do vento. É a natureza viva falando através de uma brisa. Árvore carregada, folhas ao vento. Pela cor, sente-se o gosto da fruta madura. Era o colorido de uma simples tarde. Mas a tarde recolheu-se para a noite chegar. Um ciclo perfeito. Pontinhos grandiosos lançam seus brilhos sobre nós. O brilho da lua não permite que sonhos percam-se. 
Pensamentos vagam pelo tempo bom. Chamam a inspiração que chega devagar. Palavras simples, papel em branco. A ponta do lápis não quebra, a borracha perdeu-se no vale da imaginação. Vogais cercadas por consoantes. Mas as consoantes não imploram pelas vogais, pois já são unidas, são irmãs. Palavras captam sentimentos, pensamentos, falam por vozes caladas. Olham adiante, olham através, olham o fundo da alma. São atemporais. Não se perdem. Estica-se a mão e toca-se o coração da palavra. Ela desenrola o esboço da arte no papel.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Retratos


A tarde partiu, deixando palavras, em tela, palavras lidas, sentidas, que formam retratos. Retratos da alma. É um toque no coração. Ela retribui com pequenas palavras, imensas em seus significados. É um sussurro de coração para coração. Corações distantes, porém verdadeiros. Histórias criadas por corações reais. Palavras, desembaraçadas, escondem-se na palma das mãos. Mesmas mãos que exalam o apreço. Doçura. Olhos que não perdem a leitura, sempre, ávidos por mais. Ouvem vozes verbais. As palavras dele ressoam longe e pregam nas paredes do coração. A milhas de papel. Papel protegido dos caprichos do tempo. Tempo que sucumbe às palavras. Palavras que compõem memórias e eternizam-se na alma.

Pensamentos



Ouvindo o dizer que vem de longe. Depois do horizonte. Palavras que invadem e ficam com corações em mãos. O pensamento dele rapta os pensamentos da moça e, de repente, ela está lá. Quieta, muda, apenas, olhando para ele enquanto ele escreve. Só o barulho do vento. Pensamentos. Sentados na varanda, ela aprecia a vista.
O arco-íris parece ainda fazer a ponte. A ponte que liga os pensamentos. Ela suspira. Ele sente que ela está lá. Ela caminha até o jardim. Pega uma flor e sente o perfume. Caminha descalça pelo lugar. Sentindo a terra fria. Ele fica olhando para ela e sente um bem-estar pela presença encantada. Levanta-se vai até ela. Ficam parados olhando um para o outro por um tempo. Nada a falar. Ele segura as mãos dela. Ela, serena, pensa em dizer algo, mas permanece calada. Ele dá um beijo na flor que ela tem em mãos. Ela, devagar, sai. Levando uma flor reanimada.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Diálogo incompleto



Papel, em pedaços. Travessões de um diálogo mudo. Encolhem-se diante da gargalhada brutal do tempo. Palavras escorregam pelas falhas propositais do papel. Papéis rasgados, palavras quebradas. Períodos defasados. Palavras pulam nas mãos, mas o destino, o papel, está em pedaços.
No vidro da janela, uma figura. É a lua que tateia constatando se não está quebrado para que não haja pedaços ao vento. A palavra respira. Pequenas correntes de ar, mas, não, ventania. A palavra não vinga onde não há água e nem ar. A natureza cuida e preserva. Nascente de águas quentes escondida no coração. O afluente, na mente. Confluência da imaginação.
A estrela chuta inspiração. Um chute rasteiro. Foi aparada pela mão. Mãos molhadas pelos pingos de nuvens derretidas. Palavras nascem borradas. Uma brisa que seca exibindo borrados. Borrados de um diálogo incompleto em um pedaço de papel.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A chave



                     

 Logo mais, as estrelas aparecem com a chave do portal dentro de uma caixinha, o sono. A porta de entrada para qualquer lugar. Livre das horas importunas. Um outro lugar, com outras imagens. Um tempo diferente sem hora para voltar. É estar lá no meio de tudo. Uma blusa branca para continuar despercebida. Nenhuma letra, apenas a cor branca. A cor branca esconde, mas mostra o coração. Está voltado para frente e não para trás. Muitas ruas nesse lugar, talvez haja um abrigo. Não há chuva. Sem telhas. Tudo faz sentido.
De repente, é respirar no meio de um campo lindo que beira o infinito. É olhar para cima e internalizar o encanto daquele lugar. Poucas nuvens, um lindo azul, cantos, árvores e flores ao vento. A canção é trazida pelo ar. Em sintonia com as folhas enfeitiçadas pelo som. A natureza é gentil até em sonho. É não querer acordar.

Céu azul



Emergir e ir até a margem de um rio de águas claras. Recuperar o fôlego. O mergulho foi fundo. Em água profundas, porém visíveis. Uma árvore carregada de sonhos. Pássaros cuidam para que os sonhos não caiam e não se quebrem em mil pedaços. Seria muito difícil remendá-los. Já basta os que caíram na água e a correnteza levou. A natureza tem sua própria música. Ouvir. Divagar. Chegar lá. Treinar a mente. Olhos enxergam muito além do que se pode compreender. Levanta-se e anda por toda a parte, calçada de esperança e fé, conhecendo o lugar.
O pássaro voou, um sonho caiu e quebrou. Lá adiante, uma cachoeira. Aprecia a natureza. Calmaria. Cores. A mão que  pintou o cenário. De onde brotam os sonhos. A brisa acalenta, mas os olhos não dormem. Enxergam além do horizonte. Parece que há alguma imagem. Está turva. O vento chegou e levou para bem longe.
Pensamentos voam com o vento, retornam a todo momento. Seguram a esperança pela mão para que ela não tropece nas pedras e não fique no chão. Os caminhos são longos e os anseios correm a mil na direção oposta da imagem que foi levada. O tempo é bom, a tempestade foi levada embora de vez. Agora, é só apreciar o céu azul.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A palavra



A palavra. A personagem principal da história. Cria, o tempo passa, faz história. Ciclo eterno. Não se desmancha. Pode ser apagada do papel, mas não da lembrança. Criação rima com imaginação. Andam juntas. Todas residem no deslimite. Sonham, aprontam, fazem arte. A arte da palavra. É o que se tem. Tudo pode acabar, a palavra fica. Nada mais. As linhas chegam ao fim, as palavras seguem adiante, vão além. Às vezes, verbos colidem-se, quebram-se. Param e emudecem diante do muro da ingratidão. Olhos mal podem acreditar, mas contornam e caminham para frente. A história, sendo escrita. A palavra inspira-se. Palavras vivem à mostra, não são exibidas, mas não vivem escondidas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A tinta não falha


Ele escreve. Ela está ao lado dele o tempo todo. Concentrado, não a percebe. Ela, olhando para ele, sussurra algo, mas ele não escuta porque seu coração está fechado. A voz, suave, dela manda, por debaixo da porta, um recado.  Ela não quer que ele esqueça que o coração dela bate dentro dele.
De repente, ele pensa nela. Foi a brisa que soprou em seu ouvido. Ele entende o que lhe foi enviado. Desconcentra-se, as palavras pulam tontas dos dedos dele e fazem uma ótima performance no papel. Esse papel não vai rasgar, é resistente. A tinta dessa caneta não falha. Ele abre as portas do coração para ela entrar. Quando ela entra, desmaia nos braços dele, entorpecida de amor. Vendo aquela cena, a brisa suave, sempre atenta, abre os olhos da moça. Ela passa a mão, levemente, no rosto dele. Ele fecha os olhos e, os pensamentos indicam a direção, deixando-os frente a frente de olhos bem abertos. As palavas planejam um beijo. Em seguida, despem-se da realidade. Imaginação. A palavra, sem limite, sai do coração.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estrela


Uma nuvem escura vai em direção a estrela para escondê-la com seu manto negro. Tapou sua visão, mas não sua audição. Não há tormento, não há lamento. Mas em um momento, a nuvem passa e vai embora, descobrindo a estrela, intacta, com seu mesmo brilho ou mais intenso. Visto a olhos nus, um pontinho no céu com forte brilho, assim é ela. Uma bela participação num fim de tarde. A estrela, com seu brilho, tocando corações apaixonados em um céu limpo, mas com a lua de pés cobertos.
Quando o dia raia, o sol está à espera de algum amor que não encontra ou que não chega. Corpos diferentes num mesmo espaço, nunca se encontrarão. O sol, majestoso, reinando, esquentado, procura, desesperado, o amor de alguma estrela, mas cego pelo seu próprio brilho, na verdade, almeja raptar o amor de uma constelação inteira.

Ondas




 As ondas levam o eco do silêncio que vai parar em algum lugar. Sente-se à beira-mar, escutará. O silêncio que grita dentro do peito. Aprecie o luar. Receba a flor que ela te dá. Inversão de papéis. Uma flor de sonhos imersa na realidade. A palavra venera. O coração não esconde. A mente corresponde. A palavra possui olhos desnudos e enxerga além do que se pode notar. Anseios e vontades.
 - Vem cá, sente-se aqui. Vamos olhar para o mesmo lugar, disse ela.
A tarde está indo, a noite, quase vindo e hoje já é quase amanhã, amanhã, quase depois de amanhã. Os dias correm e o ano nem demora mais tanto assim. A vida passa, o mar é o mesmo, mas, sempre, muda suas ondas, sempre, são outras. Olhos que o fitam,  tornam-se testemunhas caladas pelo assombro. O mar oferece ondas, mas ninguém nunca sabe para quem.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Túnel do tempo



De repente, a música faz uma abertura no tempo. Quando, por essa abertura, passamos, no primeiro passo dado, chegamos em algum lugar do passado. A mente, sempre, vai na frente e joga algo que puxa-nos até lá. É viajar sem sair do lugar em que o paradoxo assume todas as responsabilidades.  É entrar no túnel de acesso à grandes hits e voltar à épocas marcadas e entranhadas na memória. É ver no telão de nossas mentes filmes que nunca sumirão porque fazem parte de nós, estão marcados na alma. Fazem das músicas links com o presente.
Vozes e ritmos que ainda deixam-nos sem os pés no chão. Bandas que tornaram-se lendas para cada um de nós. Letras que arrebatavam nossos corações e gritavam, revelando aos quatro cantos, um pouco dos nossos sentimentos ou descobrindo o que estava escondido em algum canto do coração. Quando a voz canta, ela fala por nós. Há uma química perfeita entre algumas canções e nós, seus amantes fiéis. Uma química que jamais irá se desfazer porque se a canção ordena, o tempo obedece. E a canção é feita para que seu grito seja ouvido por todo o lado, para que sua letra não se perca, para que seu papel não rasgue, para que sua tinta não borre, para que desperte nossas emoções, para que faça-nos sentir mais vivos.


Às vezes, a palavra encontra-se desmaiada em um campo florido, protegida pelas flores, enquanto o verbo a procura, gritando por ela, com sua voz firme.

A música da noite



A tarde teve que ir, mas antes de partir, deu a dica de uma boa música para a noite tocar para os dois: ele e ela. Sob a luz da meia lua, poucas estrelas aparecem, não querem atrapalhar, mas elas nunca atrapalham, enchem o ambiente de beleza. Sobre o chão do encanto, deslizam esquecidos do mundo. Ele segura firme a mão dela. Ela concentra-se nele. Tímida, consegue olhar dentro dos olhos dele. Ele a conduz pelo olhar. Toca a música mais linda naquele momento especial organizado pela saudade. Ele vê o seu reflexo no brilho dos olhos dela. Ele começa a dizer algo, mas ela interrompe, colocando as mãos, docemente, nos lábios dele e diz para concentrarem-se apenas no momento que a saudade proporcionou. A saudade foi gentil e fez a ponte. Agora, ali, estão novamente. Ao fim da canção, ele a pega no colo e mergulham em águas transparentes. Corpos molhados e frio os deixam mais pertos. Numa troca de calor, algo dito ao pé do ouvido, as estrelas brilham, a noite avança e a música lenta os deixam isolados, perdidos naquele mar de amor.

Frases do Coração

A expressão simples, em comunhão com a sensibilidade, rasga o peito da palavra e sai tateando o chão do beco de acesso à perfeição, quase inalcançável.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Tarde de domingo


O domingo vestiu-se de azul. Um brilho nos olhos que emana calor, muito calor. Um papel, uma borracha e um lápis de cor. Mas há muita coisa que não se apaga. Em um mundo de cores, a borracha não faz muito sentido. Há tantas coisas que parecem não fazer sentido, mas existem e, muitas vezes, só entendemos mais adiante.
Em uma quente tarde de domingo, mergulhar nas águas dos nossos sentimentos e emergir em um sonho. Um olhar para dentro. Pegar as palavras direto na fonte, o coração, e voltar com elas em mãos e montar a história da forma como gostaríamos que fosse. Nascemos em um quebra-cabeças e, à medida que vivemos, aprendemos a encaixar as peças. Não devemos espalhá-las mais ainda e nem chutá-las para cima.
Um lápis de cor pode pintar um dia, não é preciso um balde de tinta. O destino sugere-nos as cores e nós escolhemos. E, hoje, o dia está azul. Cada pessoa escolhe a cor que deseja pintar o seu dia. Um barulho de folhas ao vento. Elas parecem dançar. Sempre, animam-se. Mas não é coisa típica apenas de domingo. São detalhes de todos os dias, é só reparar. E a tarde já está indo e só vai porque sabe que, amanhã, voltará. A noite de domingo, gentil, fica sempre à espera da segunda-feira. Os dias correm e, talvez, possam alcançar onde precisamos chegar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Balão de Memórias


Um balão caiu no chão. Não sei de onde veio, mas caiu em território meu. Separou-se do restante.  Será se veio de muito longe? Balões carregam memórias, será se pesou demais? Interrogações a respeito de um balão que nem mesmo sabe-se a procedência. Agora, a atenção está toda voltada para ele. Chegou não sei de onde e ficou ali no chão.
Se o balão falasse, contaria tanta coisa. Tudo o que já presenciou e o motivo pelo qual se soltou. Ficou ali no canto, ainda voa, mas voa baixo. Talvez um vento mais forte o leve para outros lados. Chegou, aqui, por simples obra do acaso, e carrega consigo memórias de alguém, mas não sei de quem. Tem uma cor linda, por coincidência, é uma das cores de que mais gosto. Andou bolando por aí pelos ares, não tinha para onde ir até cair aqui. Talvez, seja melhor tirá-lo do relento, cuidadosamente, para que não estoure e guardar as memórias de alguém. Talvez, tenha saído precocemente da companhia de uma criança, uma outra adoraria tê-lo por perto. Balões é sempre bom. Não fazem mal à ninguém. Abstrae-se deles também a alegria. Se um vento forte soprar, talvez, ele se vá. Um balão de memórias vagando, vagando, vagando pelo ar.

A partida



Com o mel, enviado por ela, em mãos, ele diz que vai embora. Então, se ele deseja ir, é melhor que vá. Ela pede que vá com cuidado para não se ferir ou se perder na floresta. Ele sabe. Ele leva o amor e o coração dela. Só o tempo pode devolver. Ela sente vontade, mas não chora.
Com a partida, a inspiração chega. As confidentes dela são suas próprias palavras. Estas nunca irão partir. Nascem o tempo todo. Brotam do ar.  A natureza, agora, é a musa da arte dela. Aliás, ela sempre foi. A musa mais bela. Musa é sinônimo de tudo o que tem vida ou não, mas que inspira. Pode ser uma flor ao relento, uma noite de insônia, um pássaro, uma árvore implicando com o vento.... Enfim, são tantas coisas que trazem em si um diferente modo de falar. Há tantas coisas pelas quais podemos divagar. O amor corre nas veias, mas se ele almeja partir, não tem porque ficar. Ele apenas armou uma armadilha para ela e prendeu o seu amor. Agora, partirá.
O vento bateu na janela. O que será? Algum recado? Leve de volta, carregue consigo, ela não quer nem uma vírgula. A brisa sopra e manda para longe. Apreciemos o tempo. O céu resolveu enfeitar-se de nuvens cinzas. O vento mexe na decoração, colocando as nuvens no melhor lugar. Ficou de arrasar! Tamanho é o talento do vento. O sol, mesmo com ameaça de chuva, não se intimida, apenas sorri. Não há o que temer, só há o que apreciar. A brisa chega calmamente. É bom senti-la, ela é tranquila. Ela traz o sono que a noite escondeu. Às vezes, é até melhor sonhar. Nos sonhos, tudo parece mais colorido.

Letras de mel



Sábado com gosto de fruta. Uma fruta bem doce. Quase um mel. Chega a sede, mas é a sede pelas palavras dele. Sonha-se com elas e já acorda com saudade. São tantas palavras, mas o que há é quase indescritível. Não dá para explicar. Apenas sente-se. E sentir é um andar nas nuvens, é um mergulho em águas encantadas, é estar aí o tempo inteiro, de mãos dadas, sem que percebas. Ela nunca se foi, ele que não percebeu.
O destino, por alguma razão, deixou os dois de braços entrelaçados. Será apenas obra do acaso? Talvez, não, é muito intenso. As estrelas podem dizer. O destino prepara, mas não dá palpite. As estrelas, às vezes, somem porque não querem contar. Mas, agora, ele está, em tela, diante dela. Aquela fotografia. Ela queria ser a brisa que penteava o cabelo dele para trás. Ela soprou algo para ele, foi um beijo, mandado pelo ar. Os pássaros levam até ele. Ela adora pássaros. Os pássaros adoram ela. Ela é frágil como eles. Os pássaros revelam uma força escondida em seus cantos. A força dela encontra-se no amor por ele. Se fechas os olhos, quem dorme, é ela, dono de letras de mel.

Viagens durante a insônia

Insônia. O sono abre os olhos. O tempo passa. Olhos limpos. Pensamentos vão e vêm. Nada acontece, a insônia permanece. O vento passeia lá fora, ouço seu ruído. O céu está limpo, quase sem estrelas à mostra. Algumas palavras soltas chegam e só exteriorizo o que dá na telha. Mas a lei da palavra proibe o limite. Ela reside no deslimite. A noite é uma menina mesmo e, ainda por cima, está de birra. Esconde coisas para chamar atenção. A mente também está de olhos abertos. Ela quase não descansa. Trabalha muito.
Um bocejo durante a insônia. Pra quê? Só ilusão. O sono anda longe. Foco no amanhã, pois não quero dar muita importância a essa insônia agora. Ainda bem que os dias não são iguais. E já é sábado. Se sábado fosse uma pessoa de carne e osso, acho que seria uma pessoa sorridente. Sei lá, tenho essa impressão. Ou pode ser apenas um efeito da falta de sono. Vai ver já estou até sonhando acordada. Daqui a pouco, o vento vai começar a trazer o som do canto do galo de algum lugar. Não sei de onde vem, só sei que dá para ouvir. O canto do galo remete-nos ao interior. Manhãs de interior. São boas e calmas. Clima bom, vento brando. Uma maravilha. E a natureza, sempre presente. Sempre benvinda. E as pessoas, então, são excelentes, carismáticas, tratam todo mundo bem. A insônia está me levando a uma pequena viagem. Quase pude sentir o vento brando no meu rosto. A insônia tem dessas, pode levar-nos a qualquer lugar da nossa história. Nada demais. Só coisas simples de uma vida simples. Mas as
coisas simples carregam em si o maravilhoso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lua



A noite esconde o sono. Lá fora, a noite foi coberta pelas nuvens, mas descobre-se. Tempo quente, o tempo ferve. O vento foge, a chuva não se atreve. A natureza também tem os seus dilemas, os seus mistérios. Ficamos sem entender, apenas jogados nos braços dela.
Uma música. Um papel. Mas esta noite faz birra, esconde o sono e as ideias. Olho para a lua, confesso a ela, em silêncio, uma vontade. Ela entendeu. Abra a sua janela, olhe para ela. Nem um palpite. Deixe que ela conta. Abra suas mãos e receba o que ela vai te entregar. Guarde com cuidado, não é frágil, mas pode quebrar. Nem deixe esquecido no fundo da gaveta. Pensamentos não saem de perto de ti e, quando voltarem, sem desconfiar, vens com eles também.

Pincel


O pincel pintou um arco-íris. O arco-íris é a ponte encantada entre entre o mundo deles dois. Ela olha o rosto amado do outro lado. A cor dos olhos dele a enfeitiçam e as palavras recitadas a levam até ele. Ouvem as batidas do coração e entram em uma espécie de transe. Ficam alheios ao mundo e, também, ninguém os percebe, ali, explodindo de amor. Aquele mundo encantado é só deles, é um mundo que só aparece para eles. O pincel desenhou sol e chuva. Mas, estão, ali, juntos, não se importam se é chuva ou sol.
O mar, tranquilo, está bem perto, ondas pequenas chegam, a todo momento, trazendo e depositando, na areia, palavras que caíram do barco. Ela junta e forma frases para ele. O que ela sente, por ele, está além do que qualquer palavra pode dizer. De repente, chuviscos chegam trazendo pingos de amor. Ela apara com as mãos e passa no corpo dele. Ele apenas fecha os olhos e sente. Seu coração dispara. Cuidadoso, tenta proteger, do chuvisco, as frases que ganhou. Mas os pingos de amor regam cada vírgula, cada palavra. Nasce uma flor. Ela pega a flor, sente o perfume e, misturando com o seu cheiro, entrega para ele. A natureza é gentil. Tudo está a favor.
Os olhos dele refletem a imagem dela, ela faz parte dele, ele faz parte dela. Fotografam com os olhos e permitem que tudo aquilo entre em suas almas, guardam em seus corações cada grão de areia, cada toque da brisa, cada som da natureza, cada momento encantado, cada sorriso, cada palavra proferida, cada beijo dado, cada beijo recebido, cada cheiro prometido e cobrado. O pincel, com todo o seu talento, desenha com cores vivas aquele amor. Eles olham-se nos olhos e ela diz que seu coração já bate dentro dele. Eles têm um mundo, só eles dois sabem, só eles dois entendem.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ventania


Abriram a janela. Com a ventania, as palavras espalharam-se por todos os lados. Algumas voaram janela à fora. Algumas letras despencaram lá de cima e ficaram presas em galhos das árvores, outras caíram na calçada. Vogais foram lançadas nos telhados pelo vento. Consoantes, ainda tontas, quicam no chão. Muitas palavras foram levadas pela força do vento e ainda estão vagando por aí sem saber onde estão. Alguns verbos ficaram viúvos, pois perderam seus complementos, suas vidas não têm mais sentido.
As frases ficaram quase nuas. Estão mudas, perderam a música de suas almas, suas entonações. Orações foram quebradas, seus verbos foram levados de forma assustadora, pelo  sangue que jorra escorrem alguns objetos que restaram. Alguns verbos tiveram seus braços quebrados, tamanha é a força do vento, não podem fazer flexão por um tempo. Tristes, calaram suas vozes. Algumas palavras pesadas caíram direto no chão, pés desatentos pisaram em cima. Interrogações seguraram-se com seus ganchos nas janelas. Folhas de papel voaram por toda parte. Frases colidiram-se e, outras chocaram-se contra a parede e quebraram-se em pedaços. A ventania deixou tudo de ponta a cabeça. Mas novas palavras brotam, o tempo todo, do chão, do ar, da água, das flores, do nosso coração....
O nome dele está escrito na alma dela e, de lá, ventania alguma leva. O verbo amar escapou ileso, pois foi resgatado pelo coração. Está seguro e continuará amando à ele sossegado. Ele é o seu complemento. O amor, dela por ele, não tem fim...

O ponto final perdeu-se de vez, foi levado pelo vento.