sábado, 3 de dezembro de 2011

Balão de Memórias


Um balão caiu no chão. Não sei de onde veio, mas caiu em território meu. Separou-se do restante.  Será se veio de muito longe? Balões carregam memórias, será se pesou demais? Interrogações a respeito de um balão que nem mesmo sabe-se a procedência. Agora, a atenção está toda voltada para ele. Chegou não sei de onde e ficou ali no chão.
Se o balão falasse, contaria tanta coisa. Tudo o que já presenciou e o motivo pelo qual se soltou. Ficou ali no canto, ainda voa, mas voa baixo. Talvez um vento mais forte o leve para outros lados. Chegou, aqui, por simples obra do acaso, e carrega consigo memórias de alguém, mas não sei de quem. Tem uma cor linda, por coincidência, é uma das cores de que mais gosto. Andou bolando por aí pelos ares, não tinha para onde ir até cair aqui. Talvez, seja melhor tirá-lo do relento, cuidadosamente, para que não estoure e guardar as memórias de alguém. Talvez, tenha saído precocemente da companhia de uma criança, uma outra adoraria tê-lo por perto. Balões é sempre bom. Não fazem mal à ninguém. Abstrae-se deles também a alegria. Se um vento forte soprar, talvez, ele se vá. Um balão de memórias vagando, vagando, vagando pelo ar.

A partida



Com o mel, enviado por ela, em mãos, ele diz que vai embora. Então, se ele deseja ir, é melhor que vá. Ela pede que vá com cuidado para não se ferir ou se perder na floresta. Ele sabe. Ele leva o amor e o coração dela. Só o tempo pode devolver. Ela sente vontade, mas não chora.
Com a partida, a inspiração chega. As confidentes dela são suas próprias palavras. Estas nunca irão partir. Nascem o tempo todo. Brotam do ar.  A natureza, agora, é a musa da arte dela. Aliás, ela sempre foi. A musa mais bela. Musa é sinônimo de tudo o que tem vida ou não, mas que inspira. Pode ser uma flor ao relento, uma noite de insônia, um pássaro, uma árvore implicando com o vento.... Enfim, são tantas coisas que trazem em si um diferente modo de falar. Há tantas coisas pelas quais podemos divagar. O amor corre nas veias, mas se ele almeja partir, não tem porque ficar. Ele apenas armou uma armadilha para ela e prendeu o seu amor. Agora, partirá.
O vento bateu na janela. O que será? Algum recado? Leve de volta, carregue consigo, ela não quer nem uma vírgula. A brisa sopra e manda para longe. Apreciemos o tempo. O céu resolveu enfeitar-se de nuvens cinzas. O vento mexe na decoração, colocando as nuvens no melhor lugar. Ficou de arrasar! Tamanho é o talento do vento. O sol, mesmo com ameaça de chuva, não se intimida, apenas sorri. Não há o que temer, só há o que apreciar. A brisa chega calmamente. É bom senti-la, ela é tranquila. Ela traz o sono que a noite escondeu. Às vezes, é até melhor sonhar. Nos sonhos, tudo parece mais colorido.

Letras de mel



Sábado com gosto de fruta. Uma fruta bem doce. Quase um mel. Chega a sede, mas é a sede pelas palavras dele. Sonha-se com elas e já acorda com saudade. São tantas palavras, mas o que há é quase indescritível. Não dá para explicar. Apenas sente-se. E sentir é um andar nas nuvens, é um mergulho em águas encantadas, é estar aí o tempo inteiro, de mãos dadas, sem que percebas. Ela nunca se foi, ele que não percebeu.
O destino, por alguma razão, deixou os dois de braços entrelaçados. Será apenas obra do acaso? Talvez, não, é muito intenso. As estrelas podem dizer. O destino prepara, mas não dá palpite. As estrelas, às vezes, somem porque não querem contar. Mas, agora, ele está, em tela, diante dela. Aquela fotografia. Ela queria ser a brisa que penteava o cabelo dele para trás. Ela soprou algo para ele, foi um beijo, mandado pelo ar. Os pássaros levam até ele. Ela adora pássaros. Os pássaros adoram ela. Ela é frágil como eles. Os pássaros revelam uma força escondida em seus cantos. A força dela encontra-se no amor por ele. Se fechas os olhos, quem dorme, é ela, dono de letras de mel.

Viagens durante a insônia

Insônia. O sono abre os olhos. O tempo passa. Olhos limpos. Pensamentos vão e vêm. Nada acontece, a insônia permanece. O vento passeia lá fora, ouço seu ruído. O céu está limpo, quase sem estrelas à mostra. Algumas palavras soltas chegam e só exteriorizo o que dá na telha. Mas a lei da palavra proibe o limite. Ela reside no deslimite. A noite é uma menina mesmo e, ainda por cima, está de birra. Esconde coisas para chamar atenção. A mente também está de olhos abertos. Ela quase não descansa. Trabalha muito.
Um bocejo durante a insônia. Pra quê? Só ilusão. O sono anda longe. Foco no amanhã, pois não quero dar muita importância a essa insônia agora. Ainda bem que os dias não são iguais. E já é sábado. Se sábado fosse uma pessoa de carne e osso, acho que seria uma pessoa sorridente. Sei lá, tenho essa impressão. Ou pode ser apenas um efeito da falta de sono. Vai ver já estou até sonhando acordada. Daqui a pouco, o vento vai começar a trazer o som do canto do galo de algum lugar. Não sei de onde vem, só sei que dá para ouvir. O canto do galo remete-nos ao interior. Manhãs de interior. São boas e calmas. Clima bom, vento brando. Uma maravilha. E a natureza, sempre presente. Sempre benvinda. E as pessoas, então, são excelentes, carismáticas, tratam todo mundo bem. A insônia está me levando a uma pequena viagem. Quase pude sentir o vento brando no meu rosto. A insônia tem dessas, pode levar-nos a qualquer lugar da nossa história. Nada demais. Só coisas simples de uma vida simples. Mas as
coisas simples carregam em si o maravilhoso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lua



A noite esconde o sono. Lá fora, a noite foi coberta pelas nuvens, mas descobre-se. Tempo quente, o tempo ferve. O vento foge, a chuva não se atreve. A natureza também tem os seus dilemas, os seus mistérios. Ficamos sem entender, apenas jogados nos braços dela.
Uma música. Um papel. Mas esta noite faz birra, esconde o sono e as ideias. Olho para a lua, confesso a ela, em silêncio, uma vontade. Ela entendeu. Abra a sua janela, olhe para ela. Nem um palpite. Deixe que ela conta. Abra suas mãos e receba o que ela vai te entregar. Guarde com cuidado, não é frágil, mas pode quebrar. Nem deixe esquecido no fundo da gaveta. Pensamentos não saem de perto de ti e, quando voltarem, sem desconfiar, vens com eles também.

Pincel


O pincel pintou um arco-íris. O arco-íris é a ponte encantada entre entre o mundo deles dois. Ela olha o rosto amado do outro lado. A cor dos olhos dele a enfeitiçam e as palavras recitadas a levam até ele. Ouvem as batidas do coração e entram em uma espécie de transe. Ficam alheios ao mundo e, também, ninguém os percebe, ali, explodindo de amor. Aquele mundo encantado é só deles, é um mundo que só aparece para eles. O pincel desenhou sol e chuva. Mas, estão, ali, juntos, não se importam se é chuva ou sol.
O mar, tranquilo, está bem perto, ondas pequenas chegam, a todo momento, trazendo e depositando, na areia, palavras que caíram do barco. Ela junta e forma frases para ele. O que ela sente, por ele, está além do que qualquer palavra pode dizer. De repente, chuviscos chegam trazendo pingos de amor. Ela apara com as mãos e passa no corpo dele. Ele apenas fecha os olhos e sente. Seu coração dispara. Cuidadoso, tenta proteger, do chuvisco, as frases que ganhou. Mas os pingos de amor regam cada vírgula, cada palavra. Nasce uma flor. Ela pega a flor, sente o perfume e, misturando com o seu cheiro, entrega para ele. A natureza é gentil. Tudo está a favor.
Os olhos dele refletem a imagem dela, ela faz parte dele, ele faz parte dela. Fotografam com os olhos e permitem que tudo aquilo entre em suas almas, guardam em seus corações cada grão de areia, cada toque da brisa, cada som da natureza, cada momento encantado, cada sorriso, cada palavra proferida, cada beijo dado, cada beijo recebido, cada cheiro prometido e cobrado. O pincel, com todo o seu talento, desenha com cores vivas aquele amor. Eles olham-se nos olhos e ela diz que seu coração já bate dentro dele. Eles têm um mundo, só eles dois sabem, só eles dois entendem.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ventania


Abriram a janela. Com a ventania, as palavras espalharam-se por todos os lados. Algumas voaram janela à fora. Algumas letras despencaram lá de cima e ficaram presas em galhos das árvores, outras caíram na calçada. Vogais foram lançadas nos telhados pelo vento. Consoantes, ainda tontas, quicam no chão. Muitas palavras foram levadas pela força do vento e ainda estão vagando por aí sem saber onde estão. Alguns verbos ficaram viúvos, pois perderam seus complementos, suas vidas não têm mais sentido.
As frases ficaram quase nuas. Estão mudas, perderam a música de suas almas, suas entonações. Orações foram quebradas, seus verbos foram levados de forma assustadora, pelo  sangue que jorra escorrem alguns objetos que restaram. Alguns verbos tiveram seus braços quebrados, tamanha é a força do vento, não podem fazer flexão por um tempo. Tristes, calaram suas vozes. Algumas palavras pesadas caíram direto no chão, pés desatentos pisaram em cima. Interrogações seguraram-se com seus ganchos nas janelas. Folhas de papel voaram por toda parte. Frases colidiram-se e, outras chocaram-se contra a parede e quebraram-se em pedaços. A ventania deixou tudo de ponta a cabeça. Mas novas palavras brotam, o tempo todo, do chão, do ar, da água, das flores, do nosso coração....
O nome dele está escrito na alma dela e, de lá, ventania alguma leva. O verbo amar escapou ileso, pois foi resgatado pelo coração. Está seguro e continuará amando à ele sossegado. Ele é o seu complemento. O amor, dela por ele, não tem fim...

O ponto final perdeu-se de vez, foi levado pelo vento.